Resenha: E Se Eu Fosse Puta - Amara Moira

16 setembro 2019


Edição: 1
Editora: Hoo
ISBN: 856993114X
Ano: 2016
Páginas: 216

Sinopse: E se eu fosse puta é o quê? Você, leitor, que me diz. Tem de tudo um pouco, mas sobretudo verdade, dessas que a gente gosta só debaixo do tapete, bem escondidinha, o dia a dia da rua, a barganha, a cama, o homem depois de gozar. Amara se vê travesti e junto descobre a vida que haveria a partir de então, puta aonde quer que fosse, fosse pra cuspir, fosse pra perguntar discretamente o preço ("tudo no sigilo, sou casado, sabe?"). Corpo que não tem lugar, corpo que se fazia à revelia das regras, das normas, corpo que se prestava pra sombra, essa era eu e eu não fazia sentido, sequer sabia aonde eu queria chegar. Quem me entendia? Esse livro é sobre a escolha que não faz sentido, esse livro é sobre buscar porquês. E se eu fosse puta? E se eu fosse você?


Mais um livro da série: eu não leria se não fosse por causa do Piquenique Literário. Não por preconceito, mas porque não gosto de biografias. Só li duas em toda a minha vida, a do mestre Stephen King e a do Sidney Sheldon. Ambas penei para terminar, mas como são autores que eu gosto muito, finalizei e posso dizer que até gostei da leitura! rsrsrsrrs
❝Dar prazer foi meu destino amargo, dar, mas também receber. E se sentir prazer naquilo com que se trabalha for critério para escolher profissão, a minha já estava escolhida. E se eu fosse puta? Bom, agora eu era.❞
E se eu fosse puta foi uma surpresa. Assim que o livro chegou, quando o folheei pela primeira vez, li alguns dos títulos dos capítulos e já comecei a rir. Achei que o livro seria engraçado e cheio de histórias hilárias do começo ao fim. Tem também, mas a autora usa suas histórias para nos mostrar o outro lado da prostituição: o lado do ser humano que está li, prestando o serviço.

E se eu fosse puta é um grito de socorro também. Durante a leitura, consegui sentir um pouco do que a autora passa/passou durante sua vida. Sei que como mulher cis, não tenho a ínfima noção do que é ser Trans/Travesti, mas como humana e portadora se sentimentos, fiquei triste por sua história ser tão sofrida. Ser puta não é fácil, ser uma Travesti puta torna as coisas piores. Sem romantização da prostituição e verdades de sobra, Amara trás um texto coeso, de fácil entendimento e verdadeiro. O leitor se surpreenderá com sua narrativa e ficará triste assim que virar a última página.
❝Aí, de repente, descubro que talvez essa seja a profissão que, enquanto travesti, eu terei fácil pela frente. Sou tratada igual a puta bem antes de me assumir puta, quase uma tatuagem na testa: bastou me verem travesti e já começa o assédio, assédio de que nunca tive notícia enquanto posava de homem.❞
Amara rasga o verbo e conta tudo. Isso mesmo: TUDO! Se prepara para histórias engraçadas mas também sofridas. Histórias que farão você enxergar as prostitutas com outros olhos. Nós só sabemos o que nos foi ensinado, então, convido você a descobrir a real história pela boca (e mãos) de uma escritora Travesti Puta.
Como um todo, gostei muito da obra. Ao mesmo tempo em que fui entretida, também aprendi muito e, só pelo ensinamento, já me valeu demais a leitura desse livro. Aqui, só confirmei o que eu já sabia: Homens são homens. Não importa se são casados, pais de família, honrados e tal. Ao entrarem em uma zona em busca de uma rapidinha (ou não), todos são iguais. Alguns despertam o lado imoral que sempre julgam nos outros; outros fazem promessas que são esquecidas assim que gozam.
O intuito deste livro é dar voz as minorias. É fazer a sociedade enxergar que elas existem e merecem respeito e solidariedade. Elas estão aqui e não vão embora só para amenizar seu preconceito.

Enfim, só posso indicar. A editora Hoo fez um belíssimo trabalho gráfico: o livro é lindo fisicamente. Possui folhas amarelas, boa diagramação e detalhes nos capítulos que imitam um diário.
A escrita da autora é gostosa, atual e direta. Amara usa muito Pajubá, um dialeto da linguagem popular, muito usado pelo chamado povo santo, praticantes de religiões afro-brasileiras como candomblé, e também pela comunidade LGBT.
❝Fico me perguntando se haveria amor livre para nós travestis, em especial as 90% que estão no combo "travesti" + "prostituta". Não quero nem de longe chamar essa prostituição que há para nós, precária, de "amor livre", nem esses pedidos, todos de namoro de clientes que só se permitem nos amar na cama do motel, chapados de tesão. Longe de mim. Mas penso, isso sim, em construirmos redes de afeto, redes com pessoas que nos tratem como gente, um amor militante, construído, desconstruído, que nos ajude a cultivar o desapego, a combater a ideia de amor como posse, exclusividade, de conciliação entre amor e sexo (imagina a violência disso, ver-se prostituta e ainda assim acreditar que amor e sexo devem andar juntos?), a problematizar essas experiências românticas que só nos violentam, que só nos deixam reféns nas mãos de gente que não merece nosso amor, nosso tesão, nossas lágimas. Talvez isso nos fortalecesse para enfrentar os joguinhos a que esses mesmos irresponsáveis nos submetem cotidianamente, já que teremos de enfrentá-los de qualquer forma. Talvez isso nos desse mais autonomia para nos impormos numa relação com quem quer que fosse, sem precisarmos aceitar migalhas.
Por um mundo onde não seja preciso coragem nem desconstrução para amar uma travesti.❞
Neste último final de semana, participei da FLIM aqui na minha cidade, (Festa Literomusical do Parque Vicentina Aranha) e tive o prazer de acompanhar a terceira mesa com autores, no sábado, com a Amara Moira, Eliane Potiguar e Marcus Groza. Foi uma tarde incrível! Todos eles são maravilhosos e tem o dom da palavra. Convido vocês a conferir os vídeos que postei lá na page do blog, tenho certeza que vocês não vão se arrepender!
Essa mesa foi muito importante pois seu tema era Lugares e Falas. Amara é uma escritora ímpar, de uma inteligência gritante. Fiquei hipnotizada com sua fala e luta. Ontem, tive o prazer de reencontrá-la no Piquenique Literário onde, mais uma vez, ela nos encantou com tudo o que tem a oferecer. Agradeço muito pelo carinho que ela demonstrou para com seus leitores. Foi lindo de ver e de viver.

Enfim, parei por aqui, senão fico o dia todo! hahahahaha
Leiam este livro. Fim. rsrsrsrsr




Sobre a autora:




Travesti em início de carreira, Amara Moira percebeu ser mais fácil transar sendo paga do que dando-se de graça, facinha como ela é. Decide então pela rua, fazê-la de esquina a esquina, encontrando nisso prazer em não só viver ali o sexo tributado (nas formas inusitadas em que ele surge), como também em rememorar depois a experiência, retrabalhá-la em texto: travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta e puta ao bancar a escritora.






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