Resenha: O Homem que Odiava Machado de Assis - José Almeida Junior

16 agosto 2019


Edição: 1
Editora: Faro Editorial
ISBN: 9788595810754
Ano: 2019
Páginas: 240
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Livro cedido em parceria com a editora
Sinopse: Neste romance, uma outra face de Machado de Assis é apresentada e convidamos os leitores a conhecerem a versão de seu adversário mais desgraçado. Dois garotos, de origens muito diferentes, são forçados a conviver por alguns anos e acabam por ver suas trajetórias enlaçadas por um destino irônico. Do Morro do Livramento, passando por Portugal e pelo Rio de Janeiro do final do século XIX, os meninos, agora homens, se reencontram e retomam uma rivalidade pela qual vale dedicar a vida. E hoje, enquanto um é celebrado como um dos maiores escritores brasileiros, Pedro Junqueira, nosso personagem marcado pelo azar e pela usurpação, tem pela primeira vez a chance de ver sua história narrada sob outro ponto de vista... Porque ter como adversário o escritor de maior prestígio na literatura brasileira não deve ser fruto apenas do acaso, mas uma maldição. Junqueira não teve apenas ideias roubadas e oportunidades minadas, mas também a perda de seu grande amor.


Antes de começar essa resenha, quero parabenizar a Editora Faro Editorial por ser a primeira editora a publicar a verdadeira foto de Machado de Assis. Sim, Machado era negro e esse erro pendurou por anos. Machado é um ícone da literatura nacional: foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.
❝O caixão com frisos dourados saiu do Silogeu, carregado por Rui Barbosa, Graça Aranha e Olavo Bilac à esquerda e Coelho Neto, Raimundo Correia e Euclides da Cunha à direita. Desceram as escadas e puseram o ataúde num carro fúnebre. conduzidos por cavalos pretos de raça e cocheiros elegantemente fardados❞.
Neste livro, vamos conhecer um outro Machado - um homem ciumento, apropriador de livro alheio, rancoroso e vários outros adjetivos nada agradáveis. Quero deixar claro que, quem conta essa história é o homem que o odiava: Pedro Junqueira.
Pedro conheceu Machado quando ainda era criança. Seu pai, cafeicultor respeitado, não tinha tempo para o filho, assim sendo, o mandou para morar com a tia no Moro do Livramento. Lá, Pedro, Machado e Joana criaram laços que os amarrariam para o resto de suas vidas.

Mas não pense que alguém vale alguma coisa neste livro, ok? Porque personagem nenhum vale! O leitor não sabe em quem acreditar; não sabe se o que Pedro conta aconteceu daquele jeito mesmo, por que não há a narrativa de Machado com sua parte e, por esse motivo, eu amei demais a história! rsrsrsrsrs
Confesso que só li um livro dele até hoje - Memórias Póstumas de Brás Cubas - logo o livro que tem uma história interessante neste romance. Mesmo com o pouco conhecimento que tenho das obras do escritor, consegui encaixá-lo direitinho no enredo narrado por Pedro. Em momento nenhum deixei de apreciar a leitura e me sentir vivendo naquela época. As descrições do autor são maravilhosas e condizem com o que aprendemos estudando a História do Brasil. A mistura de ficção com fatos também não deixou a desejar: nomes consagrados da nossa história, pessoas que fizeram a diferença na luta contra a abolição da escravatura, escritores famosos dos quais só ouvimos falar, pois a muito nos deixaram, estão vivos neste livro, trazendo toda verdade e luta da época.
❝O homem olhou para mim por cima dos óculos. Antes que dissesse algo, o Visconde do Rio Branco o chamou:
- Doutor José de Alencar, vamos entrar.
Ele deu de ombros e entrou na sala de Rio Branco.
Não fiquei nem um pouco constrangido de ter insultado o autor de O Guarani.Ele era considerado o maior romancista brasileiro, mas eu achava seus livros insuportavelmente piegas❞.
José Almeida Jr. meio que completa os pontos cegos e obscuros da biografia de Machado. Ele tece sua trama de maneira simples e objetiva, sem rodeios, deixando o leitor curioso e sendo impossível largar o livro antes de virar a última página. Seus personagens são incrivelmente reais, isso conduz o leitor pela história, deixando a trama gostosa de ser lida e desvendada.
Não posso deixar de mencionar a ambientação: Do Morro do Livramento, passando por Portugal e chegando ao Rio de Janeiro, o autor não deixou nenhuma ponta solta. Acredito que sua pesquisa foi extensa e minuciosa, pois ele descreve os costumes da época em seus detalhes mais sórdidos, como a escravidão e a luta dos abolicionistas para conquistar a liberdade para todos os negros.
❝Com olhos cheios de lágrimas, a criada retornou à cozinha. Ela tinha a pele negra como um carvão. Aquela mulher era de ascendência africana, da mesma forma que seu patrão. Machado de Assis era o bisneto da escravidão vingando a humilhação de seus ascendentes em cima de seus pares pretos❞.
Quando eu gosto muito de um livro, fica difícil falar dele sem dar spoilers, espero que minha resenha tenha despertado a curiosidade em vocês e que vocês leiam esse livro. Tenho certeza que vão gostar tanto quanto eu.
Do mais, só posso indicar. A Faro Editorial sempre capricha em suas edições e essa também está incrível. Segue o padrão de publicações anteriores: linda capa, diagramação simples, mas bem feita. Também possuem algumas fotos da época, o que achei maravilhoso, sem contar o "jornal" que chegou junto com o livro dando a notícia da morte de Machado de Assis. 
❝Na rua do Ouvidor, só se ouvia falar do manifesto. Algumas opiniões que saiam nos jornais foram favoráveis à abolição irrestrita e imediata da escravidão. Mas, para a maioria, ainda havia o temor de que os escravos libertos fossem aumentar a criminalidade nas ruas. A Livraria Garnier tinha a particularidade de ser um microcosmo de todas as divergências sobre o tema, já que era frequentada por conservadores, liberais, anarquistas e todo tipo de gente, exceto os negros,  que seriam os principais interessados na causa, Mas ninguém se importava mesmo com a opinião deles ❞.


Sobre o autor: 


José Almeida Júnior é escritor e Defensor Público do Distrito Federal, formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, estado onde nasceu. Tem pós-graduação em Direito Processual e em Direito Civil.
O HOMEM QUE ODIAVA MACHADO DE ASSIS é o primeiro romance escrito pelo autor. ÚLTIMA HORA, vencedor do prêmio Sesc 2017 e publicado pela Editora Record, foi consagrado pela crítica.


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