Resenha: Violetas ao Vento - Jéssica Anitelli

06 setembro 2018

Edição: 1
Editora: Rico Editora
ISBN: 9788594410252
Ano: 2018
Páginas: 268

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Sinopse: Como sobreviver em um lar despedaçado?
Se você passar um dia por Violeta e a vir conversando alegre com Thamires ou lançando olhares apaixonados para Ricardo, nunca imaginará o que aquela menina doce e gentil esconde em seu coração. Pois, em casa, fora dos olhares alheios, onde lhe são arrancados os sonhos de menina e a dor lhe toma o rosto, é que a jovem perde as esperanças de que a vida melhore.
Ali, naquele ambiente hostil e violento, ninguém vê Violeta chorar ou ouve os gritos de dor da mãe… Ninguém impede que o pai continue com as agressões, nem mesmo que o irmão assista a tudo, impassível, como se tratar as mulheres da casa com desprezo e crueldade fosse algo banal, comum. Como se a feminilidade que carrega em si fosse uma doença.
É através dos poemas que Violeta procura esquecer as marcas do corpo e o medo de que, um dia, ela e a mãe não sobrevivam. A jovem encontra nos versos um esboço da dor, da transformação, do seu novo eu. Percebe que, ao se ver refletida naquelas palavras, pode enxergar também uma esperança de um futuro melhor. E, assim, ela tenta se redescobrir e, mais que sobreviver, lutar de peito aberto contra aquilo que a aprisiona, bem como sua mãe.
Nessa nova busca por se tornar a mulher que sempre desejou, Violeta fará uma jornada emocionante e dolorosa em busca de se empoderar, de amar e de se permitir, com acertos e erros, dúvidas e paixões, nem sempre correspondidas. Emocione-se com esse romance jovem, forte e poderoso, escrito pelas mãos – e pelo coração – de Jéssica Anitelli. E lembre-se de que, infelizmente, sempre pode existir uma Violeta perto de você, com uma história para contar.


Violetas ao Vento está no meu Kindle a um bom tempo, mas a vontade de lê-lo não foi tanta quanto senti ao tê-lo impresso na minha frente. Então, assim que cheguei em casa da Bienal, não aguentei e já comecei a lê-lo. Acredito que tenha sido um dos melhores momentos para tal, pois consegui captar toda a alma de Violeta e senti-la com mais intensidade, pois da mesma maneira que Violeta sofreu durante o enredo, eu sofri durante uma parte da minha vida. Mas não, não vou chorar minhas pitangas para vocês! rsrsrs Isso é passado, Eu perdoei meu pai por todo o mal que causou a mim. Hoje, tento muito lembrar dele só com momentos bons; as vezes é difícil, mas sempre encontro algo que me anima.

Violeta é uma jovem de 17 anos que mesmo com a pouca idade, sabe exatamente o tamanho do sofrimento. Ela e sua mãe são agredidas diariamente por aquele que devia cuidar delas, protegê-las. Maurício, pai de Violeta e, consequentemente seu agressor, trata a esposa e a filha como empregadas e, ao menor sinal de oposição a ele, ambas são agredidas tanto fisicamente quanto oralmente. O único que "se salva" das agressões é Narciso, irmão mais velho de Violeta. Narciso é criado pelo pai para ser um machista como ele.
"No fundo, queria que alguém visse que todas aquelas atitudes me afetavam, que aquele inferno no qual eu estava inserida me corroía por dentro. Queria que alguém me salvasse e me tirasse dali. Não viam que me faziam mal? Que eu sofria mais que todos ali?"
Violeta só pode contar com seus amigos e com sua madrinha. Sua mãe se tornou uma pessoa distante, mas mesmo assim, Violeta quer salvá-la desse sofrimento. Mas e quando a pessoa não quer ser salva? O que fazer?
A partir desse questionamento, Violeta enfrentará seus demônios mais íntimos, passará por momentos de dor e agonia, enfrentará o monstro que a assombra e, quem sabe, conseguirá encontrar e viver um grande amor.

Eu sofri demais lendo e resenhando esse livro. Por diversas vezes fechei o notebook e deixei para continuar a escrever essa resenha para depois. Mas uma hora eu teria que terminá-la, certo? rsrs Então, não vou me estender muito descrevendo todo o sofrimento de Violeta. O leitor poderá sentir na pele ao ler este livro. Jéssica escreve com sentimentos e conhecimento do assunto. Não baseia-se em ficção, a realidade de muitas mulheres e resume a isso e, infelizmente, não são todas que conseguem seus "finais felizes".
"Pela primeira vez na vida enfrentei meu pai. Não sabia quais seriam as consequências disso depois, mas tive coragem e é isso o que importa. Era como se uma nova Violeta estivesse surgindo, abrindo-se para o mundo, para as novas possibilidades."
Vemos Violeta crescer, tomando coragem para enfrentar seus medos e acima de tudo, querendo salvar sua mãe mesmo que a mesma não queira. Seu sofrimento é tanto que cheguei a chorar em diversas partes, não por pena, mas por raiva. Não consigo entender como uma pessoa que deveria amar e proteger pode machucar. A forma como Mauricio trata as mulheres de sua família - sim, a mãe dele também é maltratada tanto por ele quanto pelo esposo - é horrível.

Jéssica nos trouxe um enredo rico em realidade. Sua escrita doce e envolvente trata o tema com a doçura necessária para entreter o leitor e nos dar um alerta. A narrativa em primeira pessoa, pelo ponto de vista de Violeta só nos deixa mais tensos, pois acompanhamos o sofrimento dessa jovem que só quer ter uma família que a ame, que a respeite.
A autora soube dosar as partes dramáticas com o romance e isso deixou a leitura gostosa e fluída. Cada capítulo trás um trecho de um poema, Violeta ama poemas e os de Florbela Espanca acompanham o enredo desse livro. Gostei muito disso, vários dos poemas narrados por Violeta neste livro, carregam o peso do sentimento da personagem e isso me tocou muito.
A diagramação é simples, mas bem feita, com bom espaçamento e letras em tamanho confortável para a leitura. Encontrei alguns erros de revisão, mas nada que prejudique a leitura. A capa deixou a desejar, gosto mais da capa antiga do e-book, essa ficou embaçada... parece que desfocada. O jogo de cores também não ajudou muito, faltou destaque.
"A minha dor é um convento idealCheio de claustros, sombras, arcárias...Como podiam simples palavras expressarem todo o meu sofrimento? Os versos de Florbela Espanca continuaram a reverberar dentro de mim:
Nesse triste convento aonde eu moro,Noites e dias rezo e grito e choro!E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém..."
Do mais, indico sim a leitura. Acredito que seja um livro para se ter em escolas e livrarias públicas de todo o país. Violeta tem muito o que ensinar e aprender. Podemos acompanhá-la nesse enredo e quem sabe, ajudar muitas outras adolescentes que passar pela mesma coisa e não tem voz para pedir socorro. Violeta não virou estatística, mas muitas outras sim.



Sobre a autora:


Jéssica Anitelli não consegue, literalmente, viver sem palavras por perto. Para ela, quanto mais, melhor. Formada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo, já trabalhou como professora da rede estadual e, atualmente, exerce a profissão de revisora de textos. Mora em São José dos Campos, interior de São Paulo, e adora colocar a cidade – e outras por onde já passou – em suas obras.
Aos 17 anos começou a escrever, achando assim o meio de expor sua voz ao mundo. De lá para cá, não parou mais, escrevendo livros que vão do erótico à distopia, alguns publicados por grandes editoras, outros, de forma independente.
Quando não está mexendo nos textos dos outros ou sendo mãe e esposa, fica pensando em novas formas de conquistar os leitores – e o mundo.