Resenha: A Escrava e a Fera- Jéssica Macedo

03 março 2018


Edição: 1
Editora: Portal Editora
ISBN: B079MJNXDD
Ano: 2018
Páginas: 133

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E-book cedido pela autora para resenha
Sinopse: Brasil 1824.Amali nunca aceitou os rumos de sua vida. Arrancada do seio de sua família, foi vendida como escrava em um país desconhecido.
Com um espírito livre e questionador, resiste às imposições e injustiças, sofrendo as amarguras de uma luta silenciada pela opressão e violência.
Colocando em cheque a vida de um recluso barão do interior de Minas Gerais, que havia perdido mais do que se julgava capaz de suportar, Amali mostra toda a sua força, conquistando a própria alforria e lutando pela liberdade dos demais.



 Antes de começar essa resenha, quero deixar claro que minha opinião é sobre a história, a ficção criada pela autora. Em momento nenhum este livro foi mais do que isso para mim: entretenimento.

Como vocês devem saber, rolou (e ainda rola) uma certa polêmica sobre este livro. A autora foi infeliz na escrita da sinopse e na divulgação de uma das ilustrações que compõe o livro, onde Amali (a personagem principal) é marcada a ferro assim que chega na fazenda onde será escrava. Confesso que a divulgação foi de péssimo gosto. Se a sinopse tivesse sido melhor trabalhada e aquela infeliz imagem não tivesse sido divulgada, A Escrava e a Fera seria apenas mais um livro de romance açucarado onde a linda escrava se apaixona por seu dono deformado e acaba mudando ainda mais seu jeito de pensar e cria um ambiente melhor para todos os escravos que trabalham na fazenda.
"Tinha apenas uma coisa que ela aprendera bem desde que fora tirada de sua família: não podia confiar nos homens de pele branca. Eles eram maus e queriam apenas feri-la."
Na minha opinião como leitora, o livro não é nada mais que isso: uma história recontada ao estilo A Bela e a Fera, onde o romance é meloso e a história é bem fraquinha. Mas esse ainda pode não ser o ponto principal, a autora também foi acusada de romantizar o estupro e de racismo. Como já li o livro, posso afirmar que não há racismo no livro, o que encontramos são palavras utilizadas na época - já que o enredo é embasado em 1824, quando o Brasil ainda seguia o regime escravocrata e, mesmo com algumas palavras atuais, como um todo, o livro carrega a linguagem usada na época. 
Sobre a romantização do estrupo, li em algum lugar que o estupro não era somente físico e concordo com isso. Amali é uma jovem bonita que provoca olhares maldosos nos homens que a cercam. Isso pode ser considerado estupro? Só lendo para vocês tirarem suas conclusões. Sendo ainda mais sincera, há uma parte do livro em que Amali é quase violentada, mas Fernando, o barão, chega a tempo de impedir o agressor e confesso: o fim desse agressor me arrancou um sorriso enorme do rosto!

Do mais, é um romance gostoso de ler, que trás um pouco da nossa história também. A autora pesquisou bastante para criar um enredo rico em detalhes e fiel ao ano mencionado.
Amali é uma personagem que começamos a gostar logo de cara. Sofremos com suas lembranças sobre sua terra natal e a morte repentina de seu noivo. Amali nos conta que foi capturada pelo seu próprio povo e vendida como escrava para os brancos. Thaya, a cozinheira, passa a ser como uma mãe para Amali assim que a mesma chega a fazenda. Fernando, o barão da fazenda, é o típico homem bruto que não quer ser visto nem tocado por ninguém. Ao perder sua esposa, Fernando também perdeu a vontade de viver e se mantém recluso em sua fazenda para esconder a deformidade em seu rosto.
"Ele engoliu em seco. Sim, a situação dos escravos às vezes o incomodava, talvez pelo frequente questionamento de Cloé, uma ávida defensora da liberdade, ou apenas por seu próprio senso de justiça. Todavia jamais moveu uma palha para mudar o sistema, apenas continuava seguindo o fluxo."
Como um todo, é uma trama fantasiosa digna de uma novela da Globo (quem aqui assistiu Novo Mundo? Lembra da história de Diara e Wolfgang? Até a irmã odiosa de Wolfgang, Fernando tem!!!). Mesmo sendo uma fantasia, não deixa de trazer sua cota de realidade: um dono de escravos reconhecer seus erros e aderir à causa abolicionista aconteceu na História, negros se casando com brancas, brancos se casando com índias, brancos se casando com negras... O Brasil é um país com o povo mais diversificado do mundo! Vários livros didáticos comprovam que houveram brancos lutando contra a abolição da escravidão (mesmo que por motivos não tão honrosos).

A autora está trabalhando em uma nova revisão e espero eu, que remova as ilustrações que não vão agregar em nada a história. Ha tantos momentos lindos para serem ilustrados que, uma escrava sendo queimada a ferro é o pior de todos e NUNCA deveria ter sido divulgado, mesmo que tenha imagens semelhantes em livros didáticos, vivemos em um momento em que qualquer coisa é motivo para ódio, então, quanto menos, melhor. Mesmo assim, continuo sendo a favor da liberdade de expressão e da criatividade. Fantasiar é sempre melhor do que viver a realidade. Espero que a autora aprenda com seus erros e continue a nos proporcionar histórias lindas e cheias de fantasia.
"Thaya abriu um sutil e quase imperceptível sorriso ao ver a gentileza retomar com modéstia às ações do seu senhor. Talvez o jeito com ferroadas e solavancos que Bela o tratava estivesse começando a amaciar outra vez o coração da fera."
Para finalizar, indico sim a leitura, mas vá de mente aberta e não espere tanto da história. Eu como não sou fã de romances acabei lendo o livro lentamente, mas para quem gosta, é diversão garantida!


OBS:

A edição resenhada aqui no blog foi cedida pela autora, a nova edição revisada, sinopse mudada e capa diferente é a que está sendo comercializada na Amazom. Deixo abaixo a nova capa para vocês conferirem:



Sobre a autora: 



Criativa, falante... Jéssica tem mais livros do que sapatos.
Estudante de cinema na UFMG, espera um dia tornar reais os mundos que cria.
Começou a escrever peças para a escola aos nove anos e desde então não parou mais. Apaixonou-se pelos romances e literatura fantástica por descobrir um mundo repleto de possibilidades. Publicou o primeiro livro aos 14 anos, “Vale das Sombras”, com o pseudônimo de Jéssyca Delacur.