Resenha: Cartas de Amor aos Mortos - Ava Dellaira

24 janeiro 2018

Edição: 1

Editora: Seguinte
ISBN: 9788565765411
Autor: Ava Dellaira
Titulo original: Love letters  to the dead
Ano: 2014
Páginas: 344
Tradutor: Alyne Azuma

Sinopse:
Tudo começa com uma tarefa para a escola: escrever uma carta para alguém que já morreu. Logo o caderno de Laurel está repleto de mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop… apesar de ela jamais entregá-las à professora. Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sobre sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky. Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era — encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um — é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.
Resenha:
"Tem coisas que não posso contar para ninguém além das pessoas que já não estão mais aqui."
“Cartas de amor aos Mortos” narra à trajetória de Laurel, uma adolescente que acaba de perder a irmã mais velha. Esse acontecimento, como era de se esperar, devasta a vida da menina, que idolatrava a irmã. E para tentar seguir em frente e evitar as diversas perguntas dos curiosos, perguntas das quais ela não quer  e nem pode responder, muda de escola e começa o ensino médio em um novo lugar e em um bairro diferente, onde a possibilidade de que alguém conheça a sua família reduz bastante.

Filhas de pais separados, Laurel e May precisavam lidar com a situação e viver se dividindo entre a casa do pai e da mãe.  Após May morrer,  Laurel precisa lidar ainda com o fato de que o luto de sua mãe a fez mudar de estado, deixando-a somente com um pai depressivo,  uma tia beata e uma mente nublada pelo luto e pela culpa.

Mas então, na escola nova, a professora sugere uma atividade um tanto inusitada: escrever uma carta para alguém que já morreu. O que inicialmente lhe parece uma atividade bastante mórbida,  acaba se tornando uma válvula de escape. Ao fazer a tarefa, Laurel percebe que assim pode contar a sua historia, sem medo do julgamento alheio. É então que ela da inicio as varias cartas para diversos ícones mortos, como Kurt Cobain, Amy Winehouse, Jim Morrison, Janis Joplin, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop, entre outros diversos nomes famosos que marcaram epoca e a historia.
"Eu gostaria que você pudesse me dizer onde esta agora. Sei que esta morta, mas acho que tem alguma coisa da gente que não desaparece simplesmente."
Eu ouvi falar desse livro a muito tempo atrás, mas as diversas comparações com “As Vantagens de ser Invisivel” – que eu não gostei – me tiraram a vontade de ler. Quando surgiu a oportunidade de solicita-lo através de nossa parceria com a Seguinte, eu pensei melhor e resolvi me arriscar. E foi uma grata surpresa, eu simplesmente amei a leitura.

Laurel é uma personagem extremamente complexa. Ela passa por um momento de negação após presenciar a morte da irmã. E como única testemunha do acontecido, sofre ainda mais pressão psicológica, tanto dos pais como dos curiosos, para contar como exatamente May morreu, fazendo com que ela se feche para o mundo dentro de um casulo de culpa e desespero. 

O livro todo  é permeado por momentos marcantes e delicados, Ava Dellaira nos presenteia com uma trama impecável, onde assuntos polêmicos e impactantes como abuso sexual,  homossexualidade e uso de drogas são  abordados explicitamente, mas não se uma forma chocantes, e sim explicativa, mostrando a diferença entre o certo e o errado e a linha tênue que separa um do outro.

Ava Dellaira também retrata de forma bastante tocante o desespero de uma garota que perdeu o seu “ídolo”, que no caso de Laurel, era a irmã mais velha. Mas, ao mesmo tempo em que ela sofre a perda, também acaba descobrindo que ninguém é perfeito, que sua irmã, que aos seus olhos era intocável, também tinha defeitos, medos e anseios, apesar de escondê-los da caçula.

O livro é em sua totalidade um retrato da dor eterna dos que perdem seus entes queridos e precisam lidar com aquele buraco no coração e na alma onde anteriormente só havia amor e felicidade.

“Cartas de Amor aos Mortos”  é escrito em primeira pessoa,  em formato de cartas. Cada capitulo é uma carta escrita por Laurel para algum famosos morto, contando passagens marcantes de seu dia ou do passado. Essas cartas a fazem perceber que pode desabafar de uma forma que não precise enfrentar o julgamento da sociedade, contando a sua historia para alguém que talvez a entendesse mas que não pode mais afirmar sua opinião de fato.

Um detalhe bastante interessante, é que autora incluiu informações sobre cada famoso citado. Quando Laurel escreve para determinado “icone”, ela primeiramente faz um breve resumo - detalhado - sobre os feitos dele, ressaltando por quais motivos ele a inspira.

Enfim, esse foi um livro que me tocou profundamente. Ri, chorei e me encantei ao acompanhar a trajetória de Laurel. A autora criou uma personagem e uma trama que envolvem o leitor, e cria uma conexão de empatia com a protagonista, nos fazendo sofrer e vibrar juntamente com ela.
Eu não poderia estar mais feliz de te apostado nessa leitura, foi a primeira do ano e já fez valer a pena.

Sobre o trabalho gráfico da editora, eu também não poderia estar mais satisfeita. A editora Seguinte nos trás um trabalho impecável, com uma diagramação simples, mas de qualidade, sem erros de revisão aparente, fonte agradável para leitura e uma capa fantástica, que possui uma textura aveludada que vai fazer você querer ficar acariciando o livro, tanto para proteger Laurel, quando pela sensação gostosa.
"Talvez ao contar historias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser uma personagem seguindo o roteiro. É saber que você pode ser a autora."
Sobre o autor:


Ava Dellaira é formada pela Universidade de Chicago e mestre pela Iowa Writers’ Workshop. Ela cresceu em Albuquerque, no Novo México, onde passou incontáveis tardes de verão fazendo poções mágicas, lutando contra bruxas más e se divertindo com outras brincadeiras inventadas, que provavelmente contribuíram para que se tornasse uma contadora de histórias. Atualmente vive em Santa Mônica, na Califórnia, onde trabalha na indústria cinematográfica e escreve seu segundo romance.